Eu não sei nem por onde começar. Meu mundo virou-se, está de cabeça para baixo, minha vida parece se desmanchar a cada segundo que passa, cada pedaço que eu tento juntar parece mais não se encaixar no todo de antigamente (um antigamente de apenas uma semana, que é como se toda uma vida tivesse se passado, e de fato passou, mas isso deixa pra depois). É incrível como agente sempre pensa que tudo vai bem e nada pode atrapalhar, ou como agente nunca espera grandes e reais mudanças na vida. Eu era conformada, acostumada e tenho certeza disso, e nunca (mentira) tinha pensado que uma coisa dessas viesse a acontecer. Na realidade até já havia pensando sim, mas de uma forma muito diferente da realidade. Estou escrevendo agora pelo simples fato de ter que colocar isso pra fora, porque apesar de morrendo por dentro, eu não transmito um milésimo de como eu realmente estou. Confusa, com medo, triste, magoada, e talvez um pouco até resignada e sem esperança. Lembra que eu estava toda feliz? A felicidade acabou, é em parte ela se foi, isso porque agora tem certas coisas que nunca mais irão acontecer, coisas que estavam tão perto de se concretizar. Lembra do quanto eu queria contar ao meu pai a minha descoberta? Isso já não me será possível, não, não mais, nem ligar pra saber determinada fórmula de matemática, nem pedir auxílio e apoio, nem nunca mais ouvir os gritos dele, ou ver aquele sorriso meio de lado, torto, meu meio sorriso preferido, não, nunca mais. Nem meus netos um dia conhecerão o avô. Tudo isso porque meu pai se foi, isso pra não dizer que ele morreu. Mas eu não posso ficar preterindo a palavra, ela existe e real. Meu pai morreu. Ponto. É para mim impossível descrever como isso se instalou em mim, na minha alma, não há palavras que traduzam o quão agonizante é o sentimento. Me da vontade de chorar, claro que dá, mas se eu chorar agora eu perco o foco, então eu não choro, só quando não estou centrada em nada e as lágrimas me vêm de sobressalto. Ainda não posso chorar, ainda não. A dor está aqui, guardada esperando um escape qualquer, e quando eu chorar, vai ser o choro mais triste do mundo. Ele se foi assim, com as malas prontas pra viagem, assim simples assim, e a minha visita nunca virá, ele se foi assim, com as luzes acesas, passagens compradas, ligações a serem feitas, roupa no varal, copo quebrado na biblioteca, assim, como se ele só tivesse ido ali resolver um problema e fosse voltar logo, mas não vai. E as contas em cima da cama, o livros no chão e uma caixa de e-mail cheia. Mas ele não volta. Ele não dormiu em sua cama aquela noite, ele não teve abrigo contra o frio que cortava, não, ele estava no chão, na terra, com a noite a sua espreita, e depois o sol e mais uma noite, e a terra passou a ser o seu conforto, seu lar para todo sempre. E o mundo chorou, chorou em orvalhos, pois naquela segunda-feira orvalhou como chuva. Eu não o vi, nunca mais vou vê-lo, salvo a lembrança, a lembrança que guardo na mente, aquela que agora tenho medo de esquecer, e as fotografias que me fazem reviver o tempo em que ele esteve comigo, e isso dói, dói sem remédio. Eu queria estar presente, eu queria abraçá-lo, fosse como fosse, gelado e negro, eu queria pela última vez o rosto que eu tanto amei, queria por tudo que eu pudesse ver aqueles olhos azuis de novo. A sensação nunca me vai ser real. Um pedaço de mim se foi com ele, e a ferida nunca mais será fechada, a dor sempre vai estar aqui, essa solidão. E eu tenho raiva, por quase um segundo eu o odeio profundamente. Como? Como ele pode fazer isso comigo? Como ele pode ir e me deixar aqui? Eu não estava preparada, ele não podia, e eu o odeio por ele não ter sido forte o suficiente pra vencer a morte. E então eu choro de novo, choro porque me lembro do quão frágil ele era. Então eu o amo de novo, amo de uma forma absoluta e imutável, e já não importa todas as brigas o que importa é que ele foi meu pai, quem me ensinou a escrever meu nome, e quem me ensinou as primeiras palavras de que me lembro, quem primeiro me colocou um livro na mão (hoje minha paixão), quem primeiro me mostrou um globo e me ensinou onde era a União soviética, quem primeiro me ensinou sobre Fidel Castro e as bananeiras, e sobre a roda pelve, ele a quem me chamava bambina, neneña e quem me levava para ver aviões decolado, ele que um dia me ensinou a restaurar livros, ele que gostava de café puro, ele quem escutava rádios internacionais e me ensinou sobre ondas curtas, ele quem comprava caixas de salpete, ele quem estudava comigo as etimologia das palavras, e quem me dizia que a Itália era uma grande bota, ele quem me levava para suas aulas, ele que só tinha uma plano na vida, ele que me amou de uma forma diferente que só os fazem aqueles que vivem no mundo das laranjeiras, ele a quem me ensinou sobre Tesla e Galileu, ele que tanto se orgulhava de mim, isso é que me importa, o quanto eu me orgulho de ser filha do gênio pacato, humilde e incomum que foi meu Pai Luiz Alberto Colodetti, o chiquito.
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Chorei horrores lendo esse texto! Pena que eu não saiba expor meus sentimentos assim...eu só consigo gurdar mesmo pra mim =/.
ResponderExcluircada um tem sua forma de se expressar, uma hora você vai descobrir a sua. Eu te amo e agente vai superar isso juntas.
ResponderExcluirAmorzinho....esse momento é difícil, mas o tempo vai ti mostrar caminhos e seguir em frente. Quando a gente se sente fraca, é quando nos tornamos ainda mais forte. Um grande abraço da tia Branca.
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